sábado, 26 de março de 2011

Elisa mata os seus demônios.

Entrou no quarto grande com o closet de porta escuras e sombrias. O grande espelho estava a sua frente e Elisa olhou para ele. A luz se apagou e ele apareceu na imagem do espelho  horripilante e com o sorriso mais sarcástico e irónico.
- Olá Elisa.
Elisa lhe sorriu.
- Olá.
- Não esta com medo! - perguntou ele irritado.
- Não. - disse Elisa sorrindo.
- Mas você não pode ir mais para o paraíso e sabe porque? Porque tem  me alimentado todos esses anos!
- Obrigado por me informar, mas não acredito mais em você.
- Ora não seja tola. Eu apareci em sua vida quando a sua irmã nasceu e você ficou com ciumes. Alimentava-me todos os dias primeiro com as magoas que sentia de sua mãe por dar mais atenção a sua irmã e depois pelas magoas que sempre cativou de tudo . Você me alimentava com essas magoas e eu ia crescendo, depois eu te retribuía com ódio, no começo eram raiva pequenas depois ódios mortais. Inclusive de sua mãe.  Sempre estive em sua vida. Você não vai se livrar de mim.
Elisa olhou para ele nos olhos.
- Obrigado por existir. Mas preciso deletar você. - e enfiou a mão pelo espelho e o pegou pelo pescoço. A coragem de Elisa assustou o demônio, mas ele tentou fugir Elisa esticou a sua mão e o pegou novamente. Estrangulou com gosto, sem raiva  ou ódio ou medo.

Depois aproximou-o pelo espelho trazendo-o para fora. Pode pegá-lo com as duas mãos e estrangulá-lo de vez. Não podia ficar em sua vida mais uma isca daquele demônio. Raiva, ódios, magoas, medos, baixa estima iam saindo dele e se queimando com o ar puro do lado de cada do espelho. E então como golpe final Elisa vendo que o demônio não tinha mais vida, arrancou-lhe o coração. Era denso e escuro, trazendo todas as magoas e ódios e raiva. Mas o que mais tomava aquele coração era a culpa. A culpa de sentir  ódio, a culpa de sentir raiva, a culpa de sentir magoa.

Esmagou toda a culpa, como havia esmagado a magoa o ódio a raiva.  O demônio agora estava morto, e como golpe final, tomou a espada da auto estima, do amor próprio e do amor de ter sido amada e concebida e estar viva, por ser um SER e merecedor de estar aqui , Elisa celebrou a sua vida picando de vez o demónio com a espada da auto estima. O quarto se iluminou o dia se iluminou e Elisa, voltou  a sentir vontade de abrir os olhos. Estava só no quarto da UTI, não se importou, ela bastava para si como pessoa.Uma enfermeira a viu reagir e comunicou a sua família.

Agora, poderia tomar o rumo de sua vida como vontade de pisar firme o chão e de encarar as pessoas nos olhos e dar amor e receber amor sem cobrar nada.  Afinal conquistou o seu lugar no mundo após 26 anos de magoas e dores e ódios  e cinco numa UTI após jogar o carro numa ribanceira. Elisa encontrou-se sabendo que se vive nessa vida apenas quando se mata os próprios demónios do contrário sobrevive-se.

Só há uma ponte.


Indo de São Paulo a Manaus, três pessoas desconhecidas ao tomarem o mesmo vôo sentiram um breve desconforto em suas almas. Um estremecer de tudo o que traziam em suas vidas e logo se acomodou.

Não ficaram com medo  sentaram-se em poltronas diferente e mal se conheciam e mesmo assim encontraram razões para deixar para atrás esse sentimento.

A pessoa de terno trataria de negócios. A pessoa de baby look iria encontrar o seu namorado e a pessoa de chapéu trataria de religião.  Ao entrar no estado de Amazonas, a aeronave sofreu  uma estranha turbulência  numa atípica tempestade, onde mais misterioso  foi o fato de toda a tecnologia mais avança do avião falhar e o  levando para quilómetros longe de seu destino. E como obra de tudo o que tem que ser, a tempestade  fez a aeronave cair  na floresta  Amazônica densa, unida e misteriosa  numa fronteira com a Colômbia. E por algum  acaso do destino  sobrevivendo apenas as três pessoas desconhecidas.

Ao saírem da aeronave na noite quente e unida da floresta, correram para protegerem-se. A aeronave explodiu.
- Não havia crianças? - perguntou a pessoa de chapéu.
- Não vi criança alguma!Mas eram mais de duzentas pessoas!- disse a pessoa de baby look.
-Droga! isso não poderia ter acontecido! -disse a pessoa de terno  como não se importasse com os mortos da aeronave
- Foi algo que atingiu a aeronave. Eu senti o tranco! Um raio ou um míssil!-disse a pessoa de baby look.
-Ou a ira do senhor!- disse a pessoa de chapéu.- Certamente eram todos pecadores.
A pessoa de baby look  se irritou.
- Tá bom e você é escolhido do Senhor!
- Se sobrevivi.
- Então eu também sou!
-  Duvido que sobreviva a essa selva. O senhor não gosta de pessoas como você!
- E agora você quer mandar nos pensamentos de Deus.
- Não me importa a sua opinião, se não fosse pecado matar eu te mataria. Pessoas como você são uma perdição para todos.
- A sua arrogância me dá nojo. Pois fique sabendo que foi Deus que me fez assim.
-Não blasfeme.
- Não blasfeme você. E eu odeio pessoas como você.
A pessoa de terno olhou para os dois.
- Que se matem. Odeio gente de sua cor e de seu gosto pelo mesmo sexo. A porra desse avião não deveria ter caído estou perdendo tempo e dinheiro vou sair da aqui.

E saiu pela mata. A pessoa de chapéu  e a pessoa de  baby look seguiu-o também. Um olhando para o outro na mata escura e húmida que parecia engoli-lo. Chegaram próximo a um rio grande de águas turvas e caudalosas que impedia-os de atravessar.
- Deveríamos ficar próximo do avião. Ele esta queimando mas pelo menos impede que animais se aproximem. - disse a pessoa de chapéu.
-Porque me seguiram então! - ríspido disse a pessoa de terno.
-Por medo de ficar só. - disse a pessoa de Baby look.
Todos perceberam que seria inevitável  a presença do outro. Voltaram. E ao olharem para o avião as ultimas chamas o comia.

Afinal porque eles três haviam sobrevivido? Um silêncio, uma tempestades de duvidas o fizeram  inevitavelmente se perguntaram.o porque haviam sobrevividos.
Passaram a noite olhando para tudo e conversando, botando as claras o particular ponto vistas das coisas. No silêncio da mata que lhe ensinou que ao estremecer as suas almas no dia do voo uma ponte se fez única para cada um. Tinham por alguma razão saber um do outro e  tentar compreender.  No dia seguinte, o resgate veio.

E desde de então os três passaram a se encontrarem  a cada quinze dias. E quando marcam o dia não faltam. Não que tenham mudado o ponto de vista das coisas de antes, mas o barulho do estremecer de suas almas antes do acidente, e o acidente havia ecoava em suas vidas talvez para sempre.

A verdade que nos lambe!

A verdade que nos lambe é como o nosso amigo fiel: O cão.
Ela Está sempre ali dizendo para nós nunca nunca mesmo deixar que nos "matem". Deixar que  matem os nossos sonhos e os nossos desejos. Nunca deixem que matem o nosso amor, o nosso amor pelo outro e o nosso amor por nós próprio.
A verdade esta sempre nos lambendo  nos tocando quando deixamos de ser o que somos, ou tememos  enxergar o que somos. Quando abrimos mãos de nosso sonhos apenas para ganhar mais dinheiro ou por vergonha de cantar num bar de quinta categoria. ou fazer  pães, azulejos, roupas ela esta lambendo a gente carinhosamente para acordarmos e ir-mos enfrente e não desistir.
A verdade nos lambe quando imaginamos ser incapazes do que esta dentro de nós e nos magoamos e nos metemos em depressões sem importância. A verdade nos lambe sim, mas ela também pode nos morder. E morder dolorosamente para acordarmos e perceber que não vale apenas não ser o que não se é.

Frases

"...nada mais artificial do que a ideia de que a beleza é um tempero da realidade..."
Jean-Paul Sartre- Sursis pg328

"...o artista não se concretiza somente pelo fato de executar obras de arte, como se pensaria ingenuamente, mas porque tem prazeres da arte..."
Jean-Paul Sartre- Sursis pag 328

" As palavras tem sexo(...) aman-se umas as outras. E casam-se. E o casamento delas é o que chamamos estilo."
Machado de Assis.

" É melhor cair das nuvens do que cair do terceiro andar"
Machado de Assis.